Quando você ensina, transmite. Quando você educa, disciplina. Mas quando evangeliza, salva.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Confidência de mãe

 
 Andradina de Oliveira

Dei-te um berço de rendas e de flores,
Adorei-te por nume excelso e amigo
E inclinei-te, meu filho, a ser comigo
Soberano de sonhos tentadores.

Ordenava, no orgulho que maldigo :
– “Não te curves nem sirvas, aonde fores...”
Entreguei-te mentiras por louvores
E enganosa fortuna por abrigo.

Hoje, de alma surpresa, torno a casa!
Tremo ao ver-te no luxo que te arrasa,
Como quem dorme em trágico veneno!

E choro, filho meu, choro vencida,
Por guardar-te entre os grandes toda a vida,
Sem jamais ensinar-te a ser pequeno.
 

Do livro Luz no Lar, obra mediúnica psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.

Qual o valor da Família?

"O fator essencial para reconhecer o valor da família está na capacidade de sentir o bem e retribuí-lo.
Quando crianças, ao sermos contrariados, fazíamos "birra".
Alguém, insistiu conosco, não uma, mas mil vezes, para aprendermos"

Valorizar a família, à primeira vista, parece se fácil. Recuperemos as primeiras lembranças de que temos: quase sempre, vamos pensar nas brincadeiras infantis, ambiente afetuoso, do carinho da mãe, da atenção do pai, das brincadeiras entre irmãos. E se lembramos de broncas e castigos, concluímos com nosso raciocínio de adulto que muitas advertências nos ensinaram limites e nos fizeram compreender o que é dever, carência, respeito, prudência.

São conceitos abstratos, mas necessários para "uma criança virar gente". como se dizia antigamente.

Mais difícil é quando não temos boas lembranças. Se faltou um dos pais ou ambos, seja presencialmente, seja no cumprimento de seu papel. Ainda assim, com mais esforço, vamos situar em outras pessoas a condição de educadores e apoiadores necessários ao nosso desenvolvimento. Avós, tios, primos ou irmãos mais velhos, consanguíneos ou não, podem ser referências importantes para nossas vidas.

Quem cresceu com total ausência destas referências teve muito mais dificuldades e sua vida, precisando encontrar em seu próprio íntimo as forças para construir a si mesmo como ser humano adulto e em condições de compreender e cumprir sua missão na vida. Mas, às vezes, quem teve tudo, só vem a dar o devido valor quando sofre as perdas que a vida impõe.

Não há dúvida que os conceitos que o Espiritismo trouxe sobre a vida ajudam a melhorar o nível do aproveitamento de nossa existência, pois aprendemos que estamos vivos para evoluir e que isso significa desenvolver a alma, em seus potenciais mentais e emocionais. O fator "reencarnação" auxilia a compreender melhor as situações de exceção, porém não se pode dizer que é indispensável para valorizar a família. Sem dúvida, ajuda, e muito. Porém são bilhões de almas encarnadas em jornada evolutiva na situação de encarnados que não receberam tal informação e que nascem, crescem, desenvolvem-se e, portanto, evoluem.

O fator essencial para reconhecer o valor da família está na capacidade de sentir o bem e retribuí-lo. Quando crianças, ao sermos contrariados, fazíamos "birra", chorando, batendo o pé no chão, chutando coisas. Alguém, pai, mãe ou couto com esta função, insistiu conosco, não uma, mas "mil vezes", para aprendermos. Talvez o tenhamos deixado quase louco, testando sua paciência, mas dentro de nós, aprendemos a identificar quando uma atitude tem como finalidade o nosso bem. Isso é aprendizado, modificação, evolução enfim.

A frase já é conhecida: amor é o que o  amor faz. O que a família - ou diversas pessoas na vida que cumpriram esse papel -  nos fez e continua nos fazendo é a verdadeira medida do amor para cada um de nós. E isso se desdobra ao longo do tempo, quando chega nossa vez de criar uma família. Pode ser que nos unamos a outra pessoa, para formar um lar, que venham os filhos e os desafio de educa-los. Pode ser que venhamos a assumir a extraordinária missão de adotá-los. Que tenhamos que criar filhos sem um companheiro/companheira.
 Ou ainda que venhamos a ser pais substitutos de filhos de outras famílias que se aproximaram de nós pela mais diversas razões.

As possibilidades são infinitas, mais tais situações da vida aparecem para nosso aprendizado e crescimento. Nem sempre vamos acertar, ao contrário, costumamos errar muito pensando que estamos certos. Porém, a direção mais segura continua sendo a regra áurea: amar ao próximo como a si mesmo. Pode ser que, em nossa mente, essa frase tão sábia seja ouvida como chavão, porque a ouvimos muitas vezes, Mas atenção: lembremos de nós mesmos, de quem somos, de que já vivemos para valorizar nossas atitudes como parte da família de alguém na vida.

Texto de Eduardo Miyashiro - Diretor-geral da Aliança
Extraido O TREVO - Aliança Espírita Evangélica numero 462

A Família

 "O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. É o templo onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente.
 André Luiz - Nosso Lar" .

A reunião de Espíritos, quase sempre diferentes, moral e intelectualmente, e uma mesma família, formando um mesmo lar, é providência tomada por força de acordos pré-encarnatórios e compromissos assumidos antes do nascimento, no Plano Espiritual.

As finalidades principais desses agrupamentos de indivíduos diferentes são:
a) resgates de dívidas do passado;
b) desenvolvimento da capacidade de amos aos semelhantes:
c) afinização entre participantes, sendo ao consanguinidade problema simplesmente decorrente, porém complementar porque, pela hereditariedade, muitas das provações se efetivam.

As diferentes condições necessárias às provas a passar juntos pelos membros da família são providenciadas pelos benfeitores espirituais encarregados das reencarnações, com anuência dos interessados, quando estes têm liberdade de opção e, compulsoriamente, nos casos contrários.

Para os Espíritos benfeitores é um trabalho delicado e penoso este de reunir, num mesmo agrupamento familiar, as pessoas e as condições necessárias aos reajustes e provações.

Se os conhecimentos espíritas fossem mais difundidos, muitos fracassos encarnativos seriam evitados, os resgastes e as aproximações facilitados, cada uma das partes agindo com a consciência despertada para os benefícios comuns do grupo.

As leis e costumes diferentes e, sobretudo os ensinamentos religiosos afastados da realidade e impostos aos homens durante séculos, desviaram-nos dos rumos certos e promoveram continuados fracassos encarnativos ou, no mínimo, baixo aproveitamento de oportunidades em sucessivas encarnações.

O lar familiar é um primeiro campo de reajustes e de experiências afetivas, onde a fraternidade e a tolerância podem ser exercitadas, visando a futura expansão do sentimento divino do amor espiritual.

Acostumando-se a querer bem àqueles que são do mesmo sangue ou da mesma grei e estendendo a tolerância às gerações seguintes, de netos e bisnetos, vai crescendo essa capacidade afetiva, penetrando os homens no campo mais amplo e geral do amor aos semelhantes, extensivo, por fim, aos estranhos.

A civilização atual está aniquilando esses sentimentos e afastando essas oportunidades, substituindo-as pela indiferença, pelo egoísmo, pela insensibilidade que caracterizam o materialismo hodierno.

Nações inteiras expoentes dessa civilização ilusória estão caminhando para a anarquia social, na qual desaparecem o respeito e o pudor, e o sexo é entronizado pelo amor livre, desembaraçado dos liames afetivos da família, num regresso lastimável à animalidade anterior.

A defesa intransigente da estabilidade dos lares, no seu sentido cristão, é uma das tarefas a que os Discípulos de Jesus devem dedicar-se com firme determinação, porque a purificação do corpo e do Espírito que os lares cristãos favorecem é condição indispensável ao aprimoramento da evolução.

Há uma forte tendência de se implantar no mundo essa licença sexual desmoralizante, para que os instintos inferiores campeiem livremente; e este é um dos sinais de que a Besta Apocalíptica tenta estender seu domínio amplamente, opondo-se às hostes iluminadas do Cristo Planetário, das quais todos os espíritas devem fazer.
cap 5 do livro Enquanto é Tempo - Edgard Armond

INFLUÊNCIA DOS PAIS
Os pais, como se sabe, influem poderosamente na conduta dos filhos, contendo excesso e impulsos instintivos, herdados da animalidade ancestral (que são congênitos) como também, sentimentos inferiores, que o convívio com os semelhantes muitas vezes favorecem, porque se soma.

Energia, vigilância e amor são três requisitos indispensáveis para o cumprimento proveitoso do dever e a quitação das responsabilidades que, como pais, lhe cabem.

EDUCAÇÃO DOS FILHOS
Quando os pais terrenos não impõem aos filhos os corretivos necessários, no tempo justo, seja por tolerância, negligência ou cansaço pela inutilidade deles, os estigmas das paixões animais prevalecem e acabam por dominá-los, exigindo repressões mais drásticas que, entretanto, nestes casos, tornam-se inúteis e até mesmo contraproducentes, porque geram ressentimentos, malquerenças e afastamentos.

Mas se os pais tudo fazem e nada conseguem, resta então confiar que o mundo exterior o fará de qualquer forma, porque aquele que não aprende com os pais, aprende com a vida que nestes casos, nunca tem mão leve.
Do livro Na Semeadura I - Edgard Armond

Extraído de O TREVO - Aliança Espírita Evangélica numero 462

A Evangelização é de Longo Curso


Roma (espírito)
Saudamos os companheiros que fazem deste recinto humilde o santuário do amor fraterno, rogando que a Sublime Luz os envolva.

As coisas simples quase sempre produzem milagres.

Um grupo singelo e sincero, envolto na luz da prece, poderá refletir a grande estrela que anunciou a vinda do nossa Divino Mestre.

Participando esta noite dos trabalhos em curso, queremos dizer, com doce emoção, que acompanhamos os vossos passos na estrada luminosa da fraternidade e estabelecemos, em bases firmes, a objetivo a ser alcançado.

Correram os séculos; o tempo em sua vertiginosa carreira deu ensejo ao advento do Cristianismo ofertando ao mundo as lições do céu.

Doou, de acordo com o Espírito de Verdade, o Consolador aos homens, rasgando os véus dos templos para fazer surgir um novo horizonte na manhã festiva da Humanidade.
De longo curso, a evangelização dos Espíritos no mundo terrestre alcança atualmente o ponto culminante que comoverá os corações incautos, por traduzirem as verdades nunca antes vistas ou pressentidas.
Caravaneiros do Amor Divino, os homens que se consagram à benção da tarefa cristã, junto aos povos necessitados, mantêm entre si liames tão fortes, que a união permanente se fará, fortalecendo os elos que constituirão, um dia, a própria Humanidade irmanada nos grandes ideais.
Possuis, como os apóstolos do Cristo, a chave da felicidade para todas as criaturas.
Entretanto, estudando o Divino Amigo, sabemos que, embora antevendo os sofrimentos crudelíssimos a que seria submetido, não hesitou em oferecer, pelo sacrifício da cruz, a mais rica lição que até hoje assombra o mundo.
Caminhai, pois, destemidos; o espinheiro vive ainda no planeta Terra, como planta agressiva, todavia, nos jardins terrestres a rosa desmancha-se em perfume e cor, suavizando a vida e enaltecendo a tolerância.
Busquemos servir sem a mágoa que fere; escute- mos a Voz do Alto que ressoa em amorável convite:
– Tomai o meu jugo. Eis que vos chamo. Filhos bem-amados, esta é a hora de atitudes definidas e definitivas. É o momento de decidir. Seguiremos o Cristo em espírito e verdade, doando-nos totalmente ao seu Amor, ou permaneceremos sobre os próprios passos, numa rodaviva, sem proveito e com intensos e mais dolorosos sofrimentos.
A Tenda de Ismael é o foco divino de divinas irradiações.
Permanecer nas tarefas a ele pertencentes é servir ao Cristianismo e, conseqüentemente, à Humanidade.
Neste santuário sublimo de orientações, preces e meditações estabelece-se o contato maior da Terra com o Plano Superior, fazendo, de instante a instante, descer sobro o coração humano a bênção da luz que o reconforta e reanima.
Seguiremos o Caminho envoltos na doce esperança do porvir, banhando-nos na aura sagrada do Grande e Divino Mestre.
Deus vos fortaleça e abençoe. Não temais.
Cristo vai à frente como Estrela Divina guiando-nos para o Eterno Amor.
Roma (espírito)

(Mensagem recebida pela médium Maria Cecília Paiva, na noite de 12 de janeiro de 1978, na Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro-RJ.)
Reformador N° 1806 de Setembro de 1979
extraído do site

7 formas positivas de ajudar as crianças a lidar com o desapontamento






por Miguel Lucas psicólogo

Como pai ou educador, o mais natural é fazer todos os esforços para evitar que a sua criança sofra ou passe por experiências de dor física ou emocional. Uma das experiências mais difíceis para uma criança é o desapontamento. As crianças são por natureza muito entusiasmadas, envolvendo-se em muitas atividades e sempre à procura de conquistas. Quando as suas esperanças e desejos não são cumpridos, elas podem experimentar sentimentos de decepção. Se esses sentimentos forem personalizados por parte da criança, ela pode julgar-se inferior relativamente às outras crianças, conduzindo-a a comportamentos prejudiciais para o seu desenvolvimento saudável. Se é pai ou educador, quero muito dizer-lhe que é possível transformar o desapontamento como um trampolim para o crescimento e desenvolvimento das crianças.
Em seguida apresento sete estratégias chave para ajudar as crianças a trabalhar na sua força emocional através dos sentimentos de decepção:

1. Reconheça os sentimentos da criança
Talvez a criança não tenha sido escolhida para o papel principal na peça escolar ou não tenha alcançado o grau académico que ela queria. Talvez ele ou ela não tenha sido convidado para uma festa de aniversário ou o seu desapontamento foi sobre algo muito sério. A primeira e mais importante resposta dos pais ou educadores é ouvir e reconhecer.
Por exemplo:
“Sim, estás desapontado.
Está certo sentir isso, e não tem problema nenhum em expressares esse sentimento. 
Sim, o desapontamento dói. É uma perda.
Queres falar comigo acerca disso? Fala o que quiseres.”

2. Valide a criança como pessoa

A decepção é uma crise emocional para as crianças. Quando elas lutam com um revés ou com uma derrota, as crianças olham para os pais para validação. Após uma experiência de decepção por parte da criança, o comportamento que os pais ou educadores têm com ela e a forma como falam acerca disso tem uma influência preponderante para a construção de uma opinião acerca do que significa o desapontamento. 
Discurso da criança:
Ainda estou bem?
Os meus sentimentos são aceitáveis ​​para você?
Há algo de errado comigo?
Isto está a acontecer comigo porque eu sou diferente para pior?  
Discurso dos pais ou educadores:
O desapontamento é doloroso, mas não tem nada de que te possas envergonhar.
Não faz com que sejas uma pessoa inferior.
Não conseguires algo que gostarias de ter ou alcançar não faz de ti um perdedor.
É muito importante deixar isso claro, tanto em palavras como em ações, porque os julgamentos negativos são comuns de acontecerem, quase de forma automática. A realidade da sociedade em que vivemos é que há classificações constantes, como por exemplo na escola, no desporto e até mesmo entre os pares.
A mensagem que importa deitar por terra é que a criança tem de ser um “vencedor”, um “número um” para ser aceite ou ter valor. Na grande maioria das vezes e para a maioria das áreas de vida isso é completamente impossível ou desajustado. Comentários desagradáveis ​​na escola ou entre os ciclos de amigos podem reforçar a sensação de ser um “perdedor”.
Fique atento às manifestações verbais e comportamentais da criança que indiquem desvalorização pessoal.

3. Ensine pelo exemplo

As crianças aprendem muito mais através da observação do que pelo que você lhes diz. Mostre à criança como você lida com o seu desapontamento. Deixe-a saber como você se sente e o que faz perante o desapontamento. Então a criança irá sentir-se encorajada a fazer de forma idêntica. 

4. Desejar versus ter

Fale com a criança. Discuta como tolerar os desapontamentos a curto prazo e como transferir as suas esperanças para o futuro. Tente descobrir juntamente com a criança quão realista é esse desejo ou objetivo. Esta é uma oportunidade de aprendizagem particularmente boa se a decepção é sobre não obter um objeto desejado, uma viagem à Disneyland, ou qualquer outra coisa.
Por exemplo: 
Nem todos os desapontamentos são para sempre.
Não foi possível fazer essa viagem agora, mas para o ano que vem certamente irá acontecer.
Escrutinar as nossas esperanças e sonhos, por um lado, e o que a vida pode oferecer a qualquer momento, por outro lado, é uma habilidade de vida muito valiosa. Por isso importa orientar e ajudar a criança a aprender a realidade que a vida nos impõe.

5. habilidades auto-calmantes para crianças

Mesmo os bebés praticam habilidades auto-calmantes, como balançar, chupar na chupeta e abraçar os pais. Observe a criança e note que habilidades auto-calmantes têm funcionado para ela. Sugira à criança que tente  aplicar essas habilidades quando se encontra desapontada. Recorrer a um conjunto de estratégias ou técnicas de regulação do estado emocional que sejam familiares para as crianças é uma forma eficaz e saudável de lidar com a decepção.  

6. Soluções (mas sem desaprovação)

Alguns desapontamentos só podem ser ultrapassados trabalhando na sua aceitação ao logo do tempo, mas existem outros que podem ser reavaliados e os seus efeitos transformados. Experimente falar tranquilamente com a criança e perceber quais as razões que a levam a colocar uma carga emocional tão elevada em alguns acontecimentos. Depois, conjuntamente com ela, perceba o que pode ser feito para minimizar os danos causados e de que forma mais construtiva poderá lidar com acontecimentos semelhantes no futuro.
Esteja ciente de que é realmente importante não transmitir culpa à criança por não ter conseguido encontrar uma forma de lidar com o seu desapontamento. Oriente a criança no caminho para uma solução que ela seja capaz de implementar na próxima vez. 

7. Amor incondicional

Quando a criança está desapontada, particularmente quando a decepção está conectada às suas realizações, você tem uma chance maravilhosa de mostrar-lhe que a ama exatamente como ela é. Se tiver algo a dizer-lhe ou a ensinar-lhe como mencionei nos pontos anteriores, refira-se sempre em relação ao comportamento ou atitude que ela teve ou tem perante o desapontamento e não propriamente a ela como pessoa. 
Exemplo:
“Eu gosto muito de ti, e percebo que possas estar desapontado. Acredito que da próxima vez não seja necessário teres uma atitude tão furiosa e de afastamento.”
Abraço,
Miguel Lucas
Licenciado em Psicologia, exerce em clínica privada. É também preparador mental de atletas e equipas desportivas, treinador de atletismo e formador na área do rendimento desportivo.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Filhos que aprontam e pais que se desculpam




Artigo da Revista O Consolador
...
Para ser mais preciso, algo muito estranho, para dizer o mínimo, está em curso na relação entre pais e filhos na atualidade. Ou seja, os pais estão agora se desculpando por exercer o seu papel na educação da sua prole. Explico melhor: há fortes indícios de que muitos pais se sentem desconfortáveis em chamar a atenção dos seus filhos quando estes se excedem ou cometem uma falta grave. Em situações mais extremas, há pais que se desculpam por não poder acompanhar os seus filhos em certos eventos ou lhes atender certos desejos e caprichos.
É evitado a todo o custo – como já presenciei inúmeras vezes - o uso da palavra “não” na interação diária entre eles, até mesmo em situações que concretamente a exigem. É notório que os padrões educacionais – refiro-me essencialmente aqui à orientação que parte do lar – sofreram acentuadas mudanças nas últimas décadas. Por conseguinte, o modelo austero do passado cedeu a um enfoque e/ou tratamento contemporizador e, às vezes, até mesmo excessivo. Por isso, é pertinente recuperar as elucidações exaradas pela doutrina espírita, considerando a delicadeza do assunto. 
Desse modo, será que estabelecer certos limites e/ou pronunciar a palavra não, quando esta for necessária, podem ser iniciativas indesejadas nas relações entre pais e filhos? A lógica nos sugere o contrário. Afinal de contas, a educação do lar tende a moldar importantes traços comportamentais e de personalidade dos filhos. É nessa fonte sagrada que normalmente bebemos durante uma parte relevante da nossa formação, e que provavelmente determinará muito do que haveremos de ser no futuro. Se bem aproveitada, certamente nos lembraremos por toda a vida de certas lições recebidas, conselhos formulados, explicações fornecidas e exemplos dados pelos nossos pais.
Corroborando essa percepção, O Espírito Emmanuel, na obra Pensamento e Vida (psicografia de Francisco Cândido Xavier), recorda que “Nasce a criança, trazendo consigo o patrimônio moral que lhe marca a individualidade antes do renascimento no plano físico; no entanto, receberá os reflexos dos pais e dos mestres que lhe imprimirão à nova chapa cerebral as imagens que, em muitas ocasiões, lhe influenciarão a existência inteira”.  
Emmanuel pondera igualmente que:
“Tratá-los à conta de enfeites do coração será induzi-los a funestos enganos, porquanto, em se tornando ineficientes para a luta redentora, quando se lhes desenvolve o veículo orgânico facilmente se ajustam ao reflexo dominante das inteligências aclimatadas na sombra ou na rebeldia, gravitando para a influência do pretérito que mais deveríamos evitar e temer.
É assim que toda criança, entregue à nossa guarda, é um vaso vivo a arrecadar-nos as imagens da experiência diária, competindo-nos, pois, o dever de traçar-lhe noções de justiça e trabalho, fraternidade e ordem, habituando-a, desde cedo, à disciplina e ao exercício do bem, com a força de nossas demonstrações, sem, contudo, furtar-lhe o clima de otimismo e esperança. Acolhendo-a, com amor, cabe-nos recordar que o coração da infância é urna preciosa a incorporar-nos os reflexos, troféu que nos retratará no grande futuro, no qual passaremos todos igualmente a viver, na função de herdeiros das nossas próprias obras”.
Por sua vez, Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (questão 208), sintetiza: “... os Espíritos dos pais têm por missão desenvolver os de seus filhos pela educação. Constitui-lhes isso uma tarefa. Tornar-se-ão culpados, se vierem a falir no seu desempenho” (ênfase minha). Dedicar-se a essa tarefa com denodo, portanto, constitui uma obrigação inalienável quando se assume a paternidade.
Desculpar-se por querer lhes fornecer as lições mais valiosas ou por negar-lhes certos caprichos perigosos não condiz com tal missão. Querer compensar a ausência física – muito comum nos dias presentes por várias razões que não cabem discorrer aqui - por meio da complacência descabida com os defeitos, manias e comportamentos inapropriados dos filhos não ajuda os que abraçam a paternidade, assim como os seus filhos, além de criar situações penosas e perfeitamente dispensáveis para todos os envolvidos.
 por Anselmo Ferreira Vasconcelos
http://www.oconsolador.com.br/ano11/530/ca1.html

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

OS PAIS SÃO RESPONSÁVEIS PELO DESENVOLVIMENTO DOS VALORES DOS FILHOS


Atualmente paira sobre as famílias modernas uma grave ameaça em torno da cultura do prazer. O instituto familiar necessita de grande choque de modelo e, sobretudo, de muito apoio religioso para alcançar seu equilíbrio moral. Infelizmente, muitos pais querem que os filhos tenham prazer sem responsabilidade. Sobre isso, o psiquiatra Içami Tiba afirma: “as drogas são maneiras fáceis de conseguir “prazer”. O jovem não precisa fazer nada, apenas ingeri-la. Os filhos estão sendo educados para que usem drogas.”(1) Os pais têm oferecido tudo aos filhos sem exigir responsabilidade em troca, sem exigir que eles mantenham uma disciplina moral.\

Os pais são responsáveis pelo desenvolvimento dos valores dos filhos e não devem apostar na escola para exercer essa tarefa. Para Içami, “as crianças viraram batatas quentes: os pais as jogam na mão dos professores, os professores devolvem aos pais.”.(2) O psiquiatra reafirma que “um pai de verdade é aquele que aplica em casa a cidadania familiar. Ou seja, ninguém em casa pode fazer aquilo que não se pode fazer na sociedade. É preciso impor a obrigação de que o filho faça isso, destarte, cria-se a noção de que ele tem que participar da vida comunitária.”.(3)

Os pais precisam fazer com que os filhos entendam que eles têm que cumprir sua parte para usufruir as benesses do amor. Os pais precisam exigir mais. “O exigir é muito mais acompanhar os limites, daquilo que o filho é capaz de fazer.”. Para Içami Tiba, se “Você quer educar? Seja educado. E ser educado não é falar “licença” e “obrigado”. Ser educado é ser ético, progressivo, competente e feliz.”.(4)
Os espíritas sabem que a fase infantil, em sua primeira etapa, é a mais importante para a educação, e não podemos relaxar na orientação dos filhos, nas grandes revelações da vida. Sob nenhuma hipótese, essa primeira etapa reencarnatória deve ser enfrentada com insensibilidade. De 0 até 7 anos, aproximadamente, é a fase infantil mais acessível às impressões que recebe dos pais, razão pela qual não podemos esquecer nosso dever de orientar os filhos quanto aos conteúdos morais. “O pretexto de que a criança deve desenvolver-se com a máxima noção de liberdade pode dar ensejo a graves perigos. Já se disse, no mundo, que o menino livre é a semente do celerado.”.(5)

Se não observarmos essas regras, permitimos acender para o faltoso de ontem a mesma chama dos excessos de todos os matizes, que acarretam o extermínio e o delito. “Os pais espiritistas devem compreender essa característica de suas obrigações sagradas, entendendo que o lar não se fez para a contemplação egoística da espécie, mas sim para santuário onde, por vezes, se exige a renúncia e o sacrifício de uma existência inteira.”.(6)
Principalmente a mãe, que segundo Emmanuel, “deve ser o expoente divino de toda a compreensão espiritual e de todos os sacrifícios pela paz da família. A mãe terrestre deve compreender, antes de tudo, que seus filhos, primeiramente, são filhos de Deus. Desde a infância, deve prepará-los para o trabalho e para a luta que os esperam. Desde os primeiros anos, deve ensinar a criança a fugir do abismo da liberdade, controlando-lhe as atitudes e concentrando-lhe as posições mentais, pois essa é a ocasião mais propícia à edificação das bases de uma vida. Ensinará a tolerância mais pura, mas não desdenhará a energia quando seja necessária no processo da educação, reconhecida a heterogeneidade das tendências e a diversidade dos temperamentos.”.(7)

A mãe “não deve dar razão a qualquer queixa dos filhos, sem exame desapaixonado e meticuloso das questões, levantando-lhes os sentimentos para Deus, sem permitir que estacionem na futilidade ou nos prejuízos morais das situações transitórias do mundo. Na hipótese de fracassarem todas as suas dedicações e renúncias, compete às mães incompreendidas entregar o fruto de seus labores a Deus, prescindindo de qualquer julgamento do mundo, pois que o Pai de Misericórdia saberá apreciar os seus sacrifícios e abençoará as suas penas, no instituto sagrado da vida familiar.”.(8)

Os filhos rebeldes são filhos de nossas próprias obras, em vidas anteriores, cuja Bondade de Deus, agora, concede a possibilidade de se unir a nós pelos laços da consanguinidade, dando-nos a estupenda chance de resgate, reparação e os serviços árduos da educação. Dessa forma, diante dos filhos insurgentes e indisciplináveis, impenetráveis a todos os processos educativos, “os pais depois de movimentar todos os processos de amor e de energia no trabalho de orientação deles, é justo que esperem a manifestação da Providência Divina para o esclarecimento dos filhos incorrigíveis, compreendendo que essa manifestação deve chegar através de dores e de provas acerbas, de modo a semear-lhes, com êxito, o campo da compreensão e do sentimento.”.(9)

Os pais, após esgotar todos os recursos a bem dos filhos e depois da prática sincera de todos os processos amorosos e enérgicos pela sua formação espiritual, sem êxito algum, “devem entregá-los a Deus, de modo que sejam naturalmente trabalhados pelos processos tristes e violentos da educação do mundo. A dor tem possibilidades desconhecidas para penetrar os espíritos, onde a linfa do amor não conseguiu brotar, não obstante o serviço inestimável do afeto paternal, humano. Eis a razão pela qual, em certas circunstâncias da vida, faz-se mister que os pais estejam revestidos de suprema resignação, reconhecendo no sofrimento que persegue os filhos a manifestação de uma bondade superior, cujo buril oculto, constituído por sofrimentos, remodela e aperfeiçoa com vistas ao futuro espiritual.”.(10)
Jorge Hessen

www.jorgehessen.net
Referências bibliográficas:

(1)           Entrevista com Içami Tiba, psiquiatra , autor de livros como “Adolescentes: quem ama educa!” e “Disciplina: Limite na Medida Certa” disponível em http://delas.ig.com.br/filhos/educacao/nos+educamos+os+filhos+para+que+eles+usem+drogas/n1597078796088.html
(2)           idem
(3)           idem
(4)           idem
(5)           XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995,Perg. 113
(6)           idem
(7)           _______, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995,Perg. 189
(8)           idem
(9)           _______, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995,Perg. 190
(10)         _______,XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995,Perg. 191
http://aluznamente.com.br/os-pais-sao-responsaveis-pelo-desenvolvimento-dos-valores-dos-filhos/ 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

“A vida, mesmo que imperfeita, tem sua beleza.” Entrevista com Cristiane Assis autora livro Gestação: encontro entre almas.





Quando se inicia uma gestação, vários sonhos começam a despontar no seio familiar. Toda a família vibra positivamente pelo novo ser que formará parte do caminhar de pais, avós, irmãos… Mas quando é detectada alguma enfermidade, ainda intraútero, que fazer? Como agir? Como pode o profissional de saúde informar e cuidar deste núcleo familiar?
A médica ginecologista, especializada em Medicina Fetal, Cristiane Assis relançou o livro Gestação: um encontro de almas e ministra palestras sobre o período gestacional e as surpresas que podem vir nesses meses de expectativa, tema que constitui o objeto da seguinte entrevista:

Fale-nos sobre seu livro Gestação: encontro entre almas.
Acompanhar diariamente, com a ultrassonografia, a explosão de vida que há no desenvolvimento intrauterino de uma gravidez, e estudar quanto é importante a maneira como se dá a conexão emocional entre os pais e seu bebê para a qualidade do futuro desse ser em formação, me fizeram reunir o material que apresento em Gestação: encontro entre almas.
Após 10 anos, reeditei e ampliei seu texto, com os olhos e mãos mais experientes da prática médica e com a alma plena pela experiência de ser mãe de Alexandre e Maya. Trata-se de um livro que integralmente busca celebrar, esclarecer, compartilhar e acolher as experiências do processo que envolve o nascimento de uma criança.
Cuidar de cada detalhe desse precioso momento é oferecer aos pais e familiares maiores oportunidades e melhores instrumentos para seguirem em busca de seus sonhos e conquistas. Em cada página do livro, o leitor encontrará dicas úteis para auxiliá-lo nesse processo.

Como é identificar um possível quadro de malformação fetal quando o bebê ainda está no útero da mãe?
Devo dizer que por mais que estude, me informe e vivencie essa situação, não há um jeito mais fácil ou simples de transmitir essa notícia. Não quando, a cada uma de suas palavras, destrói-se o sonho de um filho perfeito e um futuro tranquilo.
A partir desse diagnóstico, inicia-se uma imensa jornada para esses pais, pois iniciam não só a busca por mais informação e por ajuda na solução do problema, mas também por alguém que seja capaz de ter empatia com seu sofrimento. É imensa a dor de pais que, antes mesmo de poderem pegar seu filho nos braços, já o veem em tão grande sofrimento. 

Há outros exames além de ultrassonografia morfológica que permitem confirmar o diagnóstico?
O exame morfológico é apenas o início do processo que levará à compreensão do que está acontecendo com o feto.
No aspecto médico, uma vez detectada alguma alteração, recomenda-se que o casal seja encaminhado para o aconselhamento genético ou um profissional especializado em Medicina Fetal, que ajudará a esclarecer as dúvidas do casal sobre possíveis causas e prognósticos.
Também, dependendo do órgão fetal acometido, algum dos exames abaixo pode ser solicitado para complementação do diagnóstico:
- Ecocardiografia Fetal - Nesse exame, é estudado detalhadamente o coração do feto. Não só sua anatomia, mas também seu funcionamento. Ele é importante para diagnosticar problemas cardíacos que necessitem de cuidados especiais, logo após o parto, facilitando, assim, a mobilização, de uma equipe especializada, de maneira ordenada, e não às pressas, como geralmente acontece. Em muitos casos, esse diagnóstico precoce é fundamental para a sobrevivência de muitos bebês fora do útero.
- Procedimentos Invasivos - São procedimentos realizados por meio da introdução de uma agulha na cavidade amniótica. Esta é guiada através do exame de ultrassom, para evitar que se direcione para um local diferente do desejado pelo médico. Devido ao conhecimento e prática necessários, os procedimentos são realizados apenas por equipes especializadas em Medicina Fetal. Além disso, podem trazer complicações, como aborto, ruptura da membrana amniótica, trabalho de parto prematuro, descolamento de placenta, entre outras. Por isso, tem indicação específica e o casal, junto com o médico, deve avaliar a relação custo-benefício de tais riscos.
Como destacamos até aqui, o feto é um indivíduo com sensações. Por isso, ao “invadirmos” seu espaço com algo tão agressivo como uma agulha, é importante explicar-lhe o que está acontecendo e porque essa atitude é tão importante. Observações com base no ultrassom têm demonstrado que o feto foge ou tenta defender-se da agulha, quando ela atinge a cavidade amniótica abruptamente. Entretanto, quando seus pais lhe explicam que isso é necessário, ele, em alguns casos, até se afasta dela, ajudando, assim, o médico.

Quais são os tipos de exame invasivos?
Esses exames são:
- Biópsia de Vilo Corial: coleta de fragmentos da placenta (vilosidades coriônicas). Como as células do bebê e da placenta se originam de um mesmo zigoto, o estudo de seus cromossomos pode ser utilizado na tentativa de identificar os cromossomos (cariótipo) do bebê.
- Amniocentese: acesso à cavidade amniótica com o objetivo de introduzir algo em seu interior ou retirar determinada quantidade de líquido. Essa técnica adquiriu importância ímpar na prática da Medicina Fetal, pois a análise do líquido amniótico é capaz de fornecer inúmeras informações sobre as condições de saúde do feto. A amniocentese também pode ser utilizada para procedimentos específicos como: amnioinfusão – quando, por indicações precisas, é necessário introduzir soro fisiológico, ou Ringer Lactato, na cavidade amniótica; e amniodrenagem – retirada do excesso de líquido da cavidade amniótica, com o objetivo de evitar complicações na gestação ou aliviar desconfortos maternos.
- Cordocentese: retira-se uma amostra do sangue fetal, através dos vasos de seu cordão (preferencialmente artéria). Permite o diagnóstico de alterações cromossômicas, bioquímicas ou infecciosas no feto. Também é a principal via de acesso para transfusões de sangue intraútero.
- Neurossonografia Fetal - consiste na avaliac
̧ão detalhada do Sistema Nervoso Central fetal por médicos treinados e com conhecimentos específicos, mediante uso de aparelhos de ultrassonografia sofisticados. Este tipo de exame, por vezes complementado por ultrassonografia tridimensional, é indicado em gestações com risco aumentado de anomalias do sistema nervoso central.
- Resson
ância Magnética Fetal - Um dos exames mais avançados, para auxiliar a Medicina Fetal na caracterização de malformações fetais, principalmente do Sistema Nervoso. Não é um exame substituto ou concorrente do ultrassom, mas um valioso instrumento para complementar o diagnóstico e programar intervenções cirúrgicas.

Os profissionais de saúde envolvidos neste processo de acolhimento e esclarecimento já dão o suporte necessário?
Atualmente, existe um grande conflito nessa situação. De um lado, temos profissionais sendo treinados em Medicina Fetal que, como especialidade, seguem predominantemente o modelo bioético pragmático utilitarista, onde o indivíduo só tem valor para a sociedade se for capaz de produzir algo para ela. Do outro, está mais de 90% da população brasileira, que, segundo o censo de 2010, possui uma ou mais religiões. Para esses pais, o modelo bioético que melhor atenderia suas necessidades diante do diagnóstico de malformação fetal é o personalista, que garante a permanente dignidade de todas as pessoas.
A capacidade do profissional de ter empatia com eles é o que fará toda a diferença. Até aquele instante, quando uma notícia ruim chegou, ali havia um bebê festejado. Muitas vezes com um nome, acompanhado de planos e sonhos. Como, em uma questão de segundos, transformá-lo em um amontoado de células? em algo que deve ser resolvido, interrompido, apagado? Talvez seja mais simples pra quem foi treinado a pensar dessa forma. Ou pra quem prefere não pensar naquilo sobre o que não seja capaz de compreender ou dominar! Médicos ou semideuses podem fazer isso mais facilmente; não pais que amam seus filhos.
É certo que, durante um atendimento de agenda de ultrassonografia, não temos tempo para conversas prolongadas com a paciente diante das dúvidas que surgirão com o diagnóstico de uma malformação. Mas o mínimo que precisamos fazer é, através da empatia, tratá-la com o respeito e cuidado que gostaríamos de receber se estivéssemos em uma situação como essa, oferecendo os encaminhamentos a profissionais que possam dar a assistência necessária nos passos seguintes de diagnóstico e/ou tratamento. 

Quais são os aprendizados emocionais, psíquicos e mesmo espirituais que essas situações trazem tanto para o médico como para os familiares?
Em uma situação de malformação fetal, todos os envolvidos, pais, familiares e profissionais, estão diante de uma oportunidade única de aprendizado. Através do exercício de nobres sentimentos como amor, paciência, resignação, determinação, fé, entre outros, faz sentido algo que aparentemente não tem explicação. Para tanto, basta que estejam dispostos a abrir mão do controle de algo que não lhes diz respeito, a VIDA HUMANA. Ela pode por nós ser observada, amparada e auxiliada. Mas a razão de sua existência, mesmo que perene, vai além da compreensão de nossa ainda limitada ciência. Porém, seus aprendizados já podem, sim, ser quantificados. Basta estudá-los.

Quais outras colocações você gostaria de deixar sobre sua vivência no diagnóstico intraútero de malformação?
O diagnóstico de uma malformação fetal é algo extremamente desagradável. Para muitos, a primeira impressão é a destruição de um sonho... o sonho do filho saudável, com um futuro perfeito pela frente... Cada um lidará com essa notícia de forma distinta, de acordo com suas próprias vivências e com a gravidade dos achados que o feto apresentar. Contudo, a única certeza que deveriam ter em seus corações é a de que estão sendo assistidos para que tudo transcorra da melhor forma possível.
O plano espiritual sabe os sacrifícios envolvidos em uma gestação de uma criança malformada. Certamente acrescentar a dor em um momento que deveria ser apenas de alegria não passaria despercebido a quem nos ama e ampara para que sejamos bem sucedidos em nossas promessas reencarnatórias. Em minha prática, vi mães cansadas por cuidarem de seus filhos deficientes, mas todas gratas pelos aprendizados que os mesmos lhes proporcionaram ao longo de tão pesada jornada.
Conheci mães tristes porque perderam seus bebês malformados ainda intraútero ou poucos dias após o parto, mas com os corações aliviados por terem oferecido a eles todo o amor que puderam durante o tempo que tiveram com eles.
Pude também, contudo, encontrar tristes mulheres que carregavam em seus corações as feridas de terem arrancado de seus úteros seus filhos antes de seu tempo haver-se concluído. Por mais que tentassem para mim ou para si mesmas racionalizar tal decisão, seus corpos mostravam que algo ainda doía e doeria por muito tempo. A vida, mesmo que imperfeita, tem sua beleza e nos gera empatia e amor em seus movimentos. Movimentos esses que já somos capazes de ver ao ultrassom em seu coração com apenas seis semanas. Não há como ser responsável por sua interrupção sem que isso nos traga dor na alma. E essa dor, cedo ou tarde, se manifestará em nosso espírito.
Entrevista
por Giovana Campos

http://www.oconsolador.com.br/ano11/529/entrevista.html


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